• Jevison Cruz

SOU PRETO, POBRE, DE COMUNIDADE E EXIJO RESPEITO!

Foto: Blog Weber Firmino Alves


O que me leva a escrever estas linhas reflexivas, é a lembrança de um "baculejo"! Linguagem utilizada numa revista policial. Éramos umas cinco pessoas num grupo, em frente a uma comunidade de fé. Após uma reunião espiritual é normal trocarmos uma ideia e sorrirmos um pouco. Mas, ao passar três viaturas naquela noite de quarta feira, fomos todos revistados juntos ao muro da instituição religiosa, que sacrilégio! Pense comigo, seria tal abordagem um fato corriqueiro, necessário? ou seria porque estávamos numa comunidade, não éramos todos brancos, e isso necessariamente se constituía num argumento válido para a vergonha exposta?


Para contextualizar tal fato, o final do século XIX traz boas explicações. Não se pode esquecer que com a abolição da escravatura em 1888 no Brasil, os pretos foram deixados a míngua, na rua da amargura, pois como já se é de praxe, quem está no topo da estratificação social, goza das regalias, e desta feita, os senhores da casa grande foram isentos de suas obrigações com seus ex-escravos. Nessa nova conjuntura, o que fazer, onde morar, como se ocupar? Para o negro, até a prática da ludicidade, o ato de brincar com o jogo da capoeira passou a ser considerada um crime entre os anos de 1889 a 1937 (GARCIA, 2020).


Diante das circunstâncias, num panorama de libertação apenas protocolar, surgem as favelas, moradias improvisadas construídas nos morros desse imenso país, conhecidas também como barracos ou mocambos. Nessa sociogênese não se pode esquecer da disseminação ideológica do branqueamento nacional entre o final do século XIX e início do Século XX como maneira de minimizar a cor negra presente no país. Soma-se a estes fatos as teorias positivistas do psiquiatra italiano Cesare Lombroso, que traçando em suas pesquisas um perfil de criminoso, postulava que esses quanto a sua fisionomia trazia "pele, olhos e cabelos escuros" (FERNANDES, 2018). Como não poderia deixar de ser, tal teoria foi bem acolhida no cenário brasileiro.


Os tempos passaram, favela passou a ser chamada de comunidade, em 2014 a capoeira foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, mas a ação policial em comunidades continuam atualizando os ideais de Lombroso, pois segundo Pinto (2020) dos "63 mil jovens brasileiros mortos por ano, mais de 70% são negros. Tais atos comportamentais destrutivos, somente ratificam o que muitos querem negar, que o racismo no Brasil é uma realidade e o seu consciente coletivo traz as mazelas ideológicas que coisa de preto é subalterna e marginal. Entretanto, quando se faz uso adequado da racionalidade humana, logo se reconhece que as comunidades são compostas de seres humanos! Portanto, seja preto, pobre, qualquer cidadão merece ser respeitado.

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