• Edgar Welington

PM SOFREU ATAQUES RACISTAS ENQUANTO FALAVA SOBRE O PROGRAMA DE COMBATE AO RACISMO NA USP

Foto: Marcelo Brandt/G1

O tenente-coronel Evanílson Souza, profissional de polícia negro, da polícia militar do Estado de São Paulo, além de ser um homem de sorte, sempre fez a coisa certa. Sorte porque nasceu numa família que colocou a educação como dimensão inegociáveis nas prioridades da formação sua e demais irmãos, sorte porque compreendeu de forma peremptória que somente o conhecimento liberta e permite tornam reais sonhos e ambições.


A coisa certa ficou por conta da crença de que a dedicação, a disciplina e o trabalho sério e correto, removem montanhas. E, que, por conta disso, competir-lhe-ia tão somente, traçar o destino, definir o alvo obstinadamente lançar-se ao mar, ainda que estivesse diante de um obstáculo quase intransponível: ser oficial da Polícia Militar do Estado de São Paulo.


Certamente, foram essas duas coisas juntas que mantiveram acessa a chama da esperança e não o amedrontaram ao longo do caminho. Numa das carreiras mais difíceis de acesso aos negros da administração superior pública paulista e numa instituição pública e severamente questionada em razão do tratamento desrespeitoso e violento que, em regra, disponibiliza aos negros, querer e manter-se firme nesse propósito, certamente, foi antes de tudo um ato de resistência e coragem.


Com extraordinária folha corrida prestada à instituição, irretocável formação acadêmica, e sendo um comandante de batalhão, isto é, policial de rua, fosse pela sua experiência policial, fosse pela sua qualidade de homem negro, era a pessoa certa para conduzir a remodelação do novo manual de conduta da Polícia Militar, que pretende, justamente, construir as trincheiras de sufocamento e eliminação da discriminação e do racismo contra os negros, e, da mesma forma, endereçar uma ação policial fundada no respeito e dignidade da pessoa humana numa polícia estruturada e capacitada para servir e proteger a todos.


Sem discriminação de raça, sem privilégio de classe. Por todos esses fundamentos, numa sociedade que privilegia o mérito, reconhece o esforço pessoal, destaca o valor da obstinação na realização de projetos e propósitos e prestigia a capacidade de servir de forma cooperativa e devotada, uma trajetória brilhante dessa natureza, além do respeito e reverência precisa, necessariamente, estar a salvo de qualquer possibilidade de mácula e hostilização.


Ser agredido racialmente, no templo do conhecimento, que é a Universidade de São Paulo, quando, justamente se dispôs e se propôs a debater e discutir o trabalho de forma transparente e propositiva com o universo acadêmico que tradicionalmente tem virado as costas tanto para a segurança pública quanto para o racismo, desafia a sociedade, desafia as instituições e convida todos nós para revisitarmos nossa capacidade de tolerância para debater as ideias e respeitar verdadeiramente a dignidade dos sujeitos, das pessoas comuns e dos nossos policiais.


Um oficial da Polícia Militar é um profissional preparado para grandes pressões e talhado para controlar e equilibrar as emoções. Mas esse é o tipo de agressão que golpeia a alma e fragiliza o indivíduo. Pretende tirar o brilho de uma trajetória vitoriosa construída pela dedicação e trabalho, e pretende destruir na sociedade e instituições, a ambição e a fé de mudar o mundo a nossa volta e tornar realidade o sonho em cada um de nós.


Se for certo que o boletim de ocorrência de crime racial lavrado em seguida devolve o sentimento e a confiança na sociedade e na justiça, não sei, mas certo ainda é que, pessoalmente, o gosto da impotência e a dor solitária são amargos. Mas essa é também uma dor que precisa ser coletiva, pois atinge e agride cada um de nós. Nos pega desprevenidos e coloca a dúvida onde mais tínhamos esperança da salvação.



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