• Nathália Rodrigues

O CORPO DA MULHER NEGRA

Atualizado: Abr 5


Foto: Mulheres à obra


A interação com o meio nos constrói a partir de normas preestabelecidas socialmente, esses preceitos foram aprazados em decorrência de elementos sociopolíticos, socioculturais, socioeconômicos, e, sobretudo, religiosos. Essas diretrizes determinam como devem ser nossa conduta em sociedade desde nosso nascimento. Isto é ainda mais vigente à mulher, nos condicionam a reproduzir características a partir da construção e implementação de paradigmas que regulam o que e como devemos nos comportar, expressar, vestir, falar, comer...


À luz da Simone de Beauvoir, não se nasce mulher, torna-se mulher. A julgar por uma sociedade na qual o machismo estrutural é normatizado, subjugando a mulher - considerando-a inferior ao homem -, bem como o racismo estrutural, tais paradigmas são ainda mais inerentes à mulher negra, considerando os estereótipos associados à sua imagem. À vista do patriarcado, a mulher negra submerge à perspectiva da objetificação e subserviência, obedecendo a tudo o que outrora fora imposto, principalmente em relação a seu corpo.


Nesse imaginário dominado pelo patriarcado racista e misógino, o estigma prefixado expressa e impõe uma narrativa reificada da corporeidade da mulher negra. Ao mensurar “corpo”, sobretudo o corpo da mulher negra, é necessária a análise da sua construção, suas variabilidades, e o processo de reconhecimento desse grupo que historicamente é sexualizado e invisibilizado nos âmbitos sociais, seja familiar, religioso ou no ambiente de trabalho.


Breton, no livro “A Sociologia do Corpo”, traz a concepção do corpo como “vetor semântico pelo qual a evidência da relação com o mundo é construída”, ou seja, o corpo é eixo de relação com o mundo, é onde a existência toma forma por meio da fisionomia singular do indivíduo. Diante disso, analisa-se que a construção da identidade e a expressão da existência através do corpo da mulher negra, além de ser moldado pelo contexto cultural e social no qual está inserido, perpassa por inúmeros entraves que corriqueiramente põem à prova a veracidade de sua identidade, de sua existência.


É nesse inconsistente e violento cenário que o corpo da mulher negra, ora objetificado, ora inferiorizado, também é posto como produto, oferta e varejo, e simultaneamente é transformado em sustento do Sistema. Essa ambiguidade evidencia-se de maneira direta ou indireta através de estímulos ludibriáveis que permeiam o imaginário de um corpo perfeito. Na tentativa de alcançar esse padrão, vale tudo, o preço é altíssimo e transcende qualquer valor monetário, o pagamento é feito com a saúde física e mental, o que vem a ser mais um mecanismo que favorece o Sistema, dessa vez, através da indústria farmacêutica e da beleza.


A mídia muitas vezes robustece esse contexto através do desserviço à pauta. Por muitos anos a imagem de uma mulher negra despida e exposta na vitrine dos reclames do plim-plim em época carnavalesca foi atração e padrão de beleza. A crítica não é acerca da exposição do corpo da mulher negra, e sim ao holofote dado apenas quando se refere à sexualização dessa imagem, o que reforça práticas hegemônicas, machistas e racistas que muitas vezes são romantizadas pela sociedade, e são expressas por meio de comportamentos e sentimentos de posse. Nesse sentido, o corpo da mulher negra é visto como propriedade, o que acaba resultando em diversas formas de violência.


Tornamo-nos mulher nesse meio hostil. O combate a todas as formas de violência e opressão pode ser observado ao decorrer dos séculos. O feminismo negro é um exemplo de luta e resistência, nesse sentido, ressalto alguns importantes nomes de mulheres negras que trouxeram grandes contribuições para a mudança dessa realidade como Ângela Davis, Audre Lorde, Patricia Hill Collins, Bell Hooks, e no brasileiro, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, entre outras guerreiras que cooperaram para que esse movimento seja de todos e todas.


Reitero, “Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas” (Audre Lorde). Sigamos em frente lutando contra os grilhões que ainda nos rodeiam até que estejamos de fato onde almejamos estar. Não somos objeto, somos muito além do que seus olhos possam enxergar. Somos história, ciência, conhecimento, luta, resistência e verdade. Não somos só um corpo. Somos guerra e poesia.

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