• Emeline Melo

O BAOBÁ E A ESCOLA: ELEMENTOS PARA UMA PROPOSIÇÃO CURRICULAR CENTRADA NA AÇÃO NARRATIVA

Foto: BigBaobab/Divulgação

A inclusão, em nove de janeiro de 2003 (lei 10.639), da temática História e Cultura Afro-brasileira no currículo oficial da Rede de Ensino provocou a abertura de um intenso e profícuo debate acerca das reais condições de nossas escolas e professores em lidar com os conteúdos referentes a tal temática (Ferreira, 2008; Moura, 2010).


Nesse contexto, a ausência e/ou fragilidade das formações inicial e continuada para esse fim parece se configurar num impeditivo de eficácia do objetivo da lei; qual seja, o reconhecimento e valorização da contribuição da matriz africana na economia, cultura e política brasileiras. Isso porque, estando os próprios professores cotidianamente imersos num meio cultural eivado de sentidos, sentimentos e valores racistas, não é difícil de presumir que suas práticas pedagógicas incorram em banalização, fetichização e até demonização da matriz civilizacional em tela (Santos e Machado, 2008).


A Adansonia digitata, popularmente conhecida como Baobá, tem ocupado um lugar de destaque em múltiplos cenários recifenses. Baobás têm sido tombados pelo poder público. Alguns de seus “indivíduos”, cuidadosamente adornados com luzes multicoloridas, revelam a inserção do Baobá na lógica do turismo oficial. O especialista em Turismo e Patrimônio Fernando Batista dos Santos tem publicado artigos sobre o Baobá e sua relação com o patrimônio político-cultural afro-pernambucano (Santos, 2011).


O Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB) tem como símbolo exatamente o Baobá. Em recente inauguração de um dos núcleos dessa rede no Centro de Educação (CE) da UFPE, que contou com ampla audiência de militantes negros recifenses, foi lançada a ideia da construção de uma cortina de baobás, em terreno ao lado do CE, e que ganha o nome de Espaço Solano Trindade.


Também no campo educacional, a professora Célia Costa, na Escola Estadual Mariano Teixeira, tem coordenado o projeto Amigos do Baobá. A Lei 17.099, de 2005, institui o dia 19 de junho como o dia do Baobá no calendário oficial do Município do Recife.

O espaço escolar, num contexto em que a própria experiência das subjetividades negras é chamada a desempenhar um papel de relevância nas práticas pedagógicas, não pode mais ser caracterizado como um ambiente neutro, livre de antagonismos, de espíritos de clã ou partidário (Teixeira, 1971); como queria o movimento escolanovista, pilar histórico constitutivo de nosso sistema nacional de ensino.


O escopo dessa discussão, numa perspectiva histórica, ultrapassa os limites das abordagens prescritivas para entender o currículo como “o próprio fundamento de qualquer sistema de ensino”, de maneira que “qualquer mudança não terá efeito, se não a acompanhar uma (re)concepção do currículo” (Schmidt, 2003, p.60). Trata-se, portanto, para que se torne efetiva a contribuição da supracitada lei, de envidar esforços no sentido de romper com o paradigma disciplinar/prescritivo de currículo – que, sustentado na “mística de que a especialização e o controle são inerentes ao governo central, às burocracias educacionais e à comunidade universitária” (Goodson, 2007, p. 242) – tem contribuído para a história de fracasso escolar das classes populares.


Nossa contribuição, a partir das narrativas construídas pelo movimento negro em torno do Baobá em Recife, aponta para a possibilidade de se pensar a aprendizagem narrativa no âmbito das subjetividades coletivas. A possibilidade de ultrapassar o escopo individual das narrativas, acreditamos, pode potencializar a crítica à escola como espaço público neutro, capaz de construir ambientes interativos férteis a quaisquer diferenças nela inseridas.


Ter-se-ia, dessa forma, que imaginar modelos curriculares – entendido o currículo como “configurador... de tudo o que podemos denominar como prática pedagógica nas salas e nas escolas” (Sacristán, 2000, p. 26) – capazes de abrir os flancos da organização escolar para experiências coletivas em curso. Essa abertura à experiência “popular”, com efeito, pode se revelar um caminho de enriquecimento da própria escola (Canário, 2005).

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