• Yure Gonçalves

“MULHER DO DIABO”: SUBVERSÃO E PROTAGONISMO FEMININO

Olá, caríssimos/as/es leitores! Seguimos imersos no contexto pandêmico. Tempos trabalhosos, não é?! Enfim... sigamos esperançosos em dias melhores, afinal, tudo passa! Até as calamidades. E, dando continuidade aos nossos trabalhos por aqui, nesta edição quero muito lhes apresentar uma das protagonistas do sufrágio feminino brasileiro, uma mulher provocante que conheci durante minhas leituras e estudos acadêmicos. Afinal, como diria Michelle Perrot, “é preciso ser piedosa ou escandalosa para existir” (PERROT, 2007, p.19).


Trata-se da Leolinda Figueiredo Daltro, vocês já ouviram falar nesse nome? Se sua resposta foi “sim”, por favor conta para mim nos comentários, quero ouvir o que vocês já sabem. Mas, se a sua resposta foi “não”, tudo bem! Fico feliz em poder compartilhar com vocês o pouco que tenho aprendido.


Leolinda Daltro nasceu na Bahia, em 14 de julho de 1859 e faleceu no dia 04 de maio de 1935, no estado do Rio de Janeiro. Sobre os aspectos que constituíam a sua identidade podemos dizer que, foi uma professora, escritora, ativista dos direitos humanos, indigenista (estudiosa e entusiasta das culturas indígenas) e sufragista (batalhou pelo direito de voto para as mulheres) brasileira. Mulher desquitada, chefe de família, mãe de cinco filhos, fundadora de um partido político e de três jornais dedicados a pauta feminina. Como ela fazia tudo isso e ainda dava conta de si mesma e de seus cinco filhos?! Eu realmente não sei! Contudo, posso categoricamente afirmar que, Leolinda representa milhões de mulheres brasileiras.




Enquanto militante dos direitos humanos, atuou fortemente na implementação de ações pedagógicas laicas e inclusiva para os indígenas, considerando suas especificidades culturais, atuando numa perspectiva etnográfica e se contrapondo a concepção de educação etnocêntrica desenvolvida pela igreja católica na catequese, ação déspota e hostil que culminava no apagamento das identidades étnicas, costumes e tradições dos povos indígenas, para adequação aos padrões sociais vigentes. A respeito disso, os indígenas e a professora Daltro protestavam e como consequência eram ridicularizados, alvos de piadas, disparadas na tentativa de silenciá-los. Contudo, seguiram incessantes ganhando notoriedade e apoiadores da causa.


Também conhecida como “Mulher do Diabo”, esse e outros apelidos pejorativos eram dados à Leolinda, haja vista, era subversiva e desquitada, sem mencionar que em conjunto com outras mulheres encabeçava um latente movimento que tencionava a quebra dos limites sociais impostos às mulheres da época. Tratava-se da busca por uma cidadania plena para mulheres que até então eram proibidas de exercer atividades políticas, não tinham direito ao voto, portanto, precisavam se sentir contempladas nas escolhas de seus maridos e filhos. É nesse contexto histórico e social que Daltro estava inserida, desenvolvendo com afinco seu papel feminista no confronto e exposição das desigualdades de gênero em uma sociedade patriarcal.


Leolinda Daltro, precursora do feminismo brasileiro, protagonizou diversos movimentos para conquista do sufrágio, ensaiado em fevereiro de 1932, cabalmente pactuado com a criação do Código Eleitoral de 1934. Com esse direito assegurado, novos caminhos foram se desenhando, conduzindo um novo passo da agenda feminista: mulheres em cargos de poder e decisão. A sufragista foi edificadora do primeiro partido político feminista do Brasil, fundado há 110 anos atrás, o Partido Republicano Feminino. Esse desempenhou papel fundamental na educação política de mulheres, convidando-as a sair âmbito privado para o público, discutir os rumos de suas cidades, estados e do país.


Ainda sobre a participação da professora Leolinda nesse processo, encerro esta matéria, fazendo uso de suas palavras, proferidas em entrevista ao Jornal “A Noite” (1934):

O feminismo que eu preguei e defendi com enormes sacrifícios, não visava directamente a conquista de postos de representação. Não tínhamos ambições pessoaes. Queríamos, antes de tudo, dar á mulher um logar melhor na sociedade, como elemento do progresso, libertando-a, tanto quanto possível, da escravidão e da situação de inferioridade em que vivia.

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