• Emeline Melo

MITOS E SUBJETIVIDADES COLETIVAS EM TORNO DA JUREMA: A RELAÇÃO DO HUMANO COM OS “ENTES DA NATUREZA”.

Foto: Tumblr Filha da Água Doce


Ao pensarmos na formação e na constituição de subjetividades e mitos afro-indígenas no Brasil, devemos observar as diversas formações culturais e as relações que elas estabeleceram ao longo dos séculos. Somos e estamos colonizados desde a matriz cultural Europeia, esse é um ponto importante no que se diz respeito a nossa constituição humana e subjetiva, mas como reconhecer esse aspecto tão naturalizado em nossos hábitos e formas de pensar na coletividade? A colonização foi e ainda nos é “cara”, uma meta-narrativa que nos exige um posicionamento político desde uma perspectiva outra que se fecunde em solos férteis.


Nesse caso, pensamos a partir da construção ontológica em torno da árvore da Jurema, sagrada para as matrizes culturais afro-indígenas. Esta árvore é conhecida por sua extensa e complexa ciência medicinal até então comprovada e utilizada pela ciência tradicional no caso de infecções e viroses. Com o nome científico de Mimosa Tenuiflora, da família Mimosaceae, a Jurema Preta, (MECKES-LOZOYA et al., 1990a), contém em si, um princípio ativo que combate várias bactérias, fungos, vírus e protozoários. Demonstrando que a força desta árvore vai além das questões religiosas, perpassando a medicina e atendendo as demandas de saúdes de suas comunidades/quilombolas, entre outras.


Atualmente vivemos no cenário da pós-colonialidade e temos Glissant (2005) que se insere no campo teórico conhecido por “estudos pós-negritude”. Seu conceito sobre creolização nos mobiliza, colocando em risco as ideias de “negritude”, “brasilidade”, “latinidade”, pois segundo este autor esses parecem ser processos que generalizam e homogeneízam a sociedade. Nesse sentido Glissant tem militado de forma ativa nesse processo de descolonização é um assíduo crítico do discurso que homogeneíza e torna os processos indenitários unos, ele nesse caso, vai problematizar a ideia euro centrada de identidade-raiz.


Desta forma, a descolonização deve em última instancia ultrapassar os limites da dialética, identidades fixas, universais e o monolinguismo. Com isso, Glissant nos provoca a nos aprofundar nesse processo de descolonização e descontruir a ideia predominante no ocidente pós-colonial que afirma existir um fundamento em si mesmo e eao invés disso ele nos convida a pensar sobre a dinâmica das construções de discursos e narrativas sobre quem somos a partir da relação com o Outro, seja o Outro o que for.


Essa concepção de que os processos idenitários são múltiplos está nos limites dos conflitos, tensões, na sensibilização da poesia e no aprender com os povos da mata. Para ele isso é uma espécie de elo entre o que é e o que é preciso deixar para traz, ainda o que podemos dispor de si mesmo para conhecer esse Outro que está em constante relação?


Com os pés fincados no chão e a cabeça olhando por entre as copas das árvores, observamos a estética, a política e a ética como meios para encontrarmos soluções, narrativas que possam dar conta dos conflitos sociais atuais. O discurso hegemônico de identidade raiz jaz no mundo moderno, infertiliza a mãe-terra e de forma violenta nega o diverso.


Nesse sentido, é possível promovermos ambientes narrativos com diálogos fecundos na relação com o Outro, seja ele humano ou não humano. É uma provocação necessária ao filosofar desde a imaginação, dando saltos críticos e criativos a partir da terra em “relação” ao lugar que ocupamos dentro da estrutura discursiva social. Glissant nos propõem buscar outras paisagens, outros modos de olhar e ser no “multi-verso”, de (re) criar sistemas de pensamentos, Mitos capazes de dar contar das particularidades e coletividades existentes em nosso planeta.


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