• Yure Gonçalves

BIG BROTHER BRASIL 21 E O DESSERVIÇO ÀS PAUTAS DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

Foto: Globo

Se você assiste o reality show, já devem ter passado pela sua cabeça algumas ideias do que possivelmente retrataremos aqui. Mas, se você não assiste e é um estudioso das temáticas étnico-raciais, já deve ter ouvido sobre algumas situações vivenciadas neste programa televisivo que é classificado como entretenimento, mas que até o momento, tem se provado um verdadeiro tormento, sobretudo psicológico para famosos e anônimos aspirantes à fama.


Esta edição do BBB selecionou 20 participantes para o convívio na “casa mais vigiada do Brasil” (como costumam dizer), desses, nove se declaram negros e negras, são eles: Karol Conká, Lumena Aleluia, Nego Di, João Luíz, Projota, Lucas Penteado, Camilla de Lucas, Gilberto e Pocah. Apesar de estarem em lugares de fala e possuírem posicionamentos distintos são atravessados pela vivência em um país estruturalmente racista — o que nos remete ao conceito de Amefricanidade, desenvolvido por Lélia Gonzalez. Amefricanidade é uma categoria afrocentrada que ultrapassa as limitações de caráter territorial, linguístico e ideológico, incorporando todo o processo histórico de intensa dinâmica cultural para a construção da nossa identidade e sentimento de pertencimento étnico.


Um dos exemplos que atravessa a vida de todo povo negro no Brasil é a violência. Para melhor ilustrar essa situação o Atlas da Violência 2020 organizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a partir dos dados do Ministério da Saúde aponta que os negros e negras constituem 75,7% das vítimas de homicídio.

Esse dado chocante nos ajuda a pensar um pouco sobre a situação da população negra no Brasil, que padece a necessidade de um estado que atue de forma profícua para a transformação do quadro de indiferença e desigualdades sociais vivenciadas pela maioria populacional e que são (re)produzidas cotidianamente pelos diversos segmentos da sociedade, entre eles a mídia televisiva, que apresenta a população negra a partir de lentes e lupas que subalternizam os afro-brasileiros.


Em se tratando do reality show acima citado, é a primeira vez que selecionam tantos integrantes da comunidade negra para compor o elenco, em termos de representatividade, um ponto positivo para a edição. Entretanto, a forma como estão sendo apresentadas e problematizadas as pautas do movimento negro, feminista e LGBTQIA+ no programa, sem a devida profundidade, representam um verdadeiro risco e desserviço aos intelectuais e integrantes destes grupos, que têm suas imagens deturpadas a partir de fragmentos de falas e tomada de posturas de indivíduos que (apesar de sua participação) não representam a totalidade dos movimentos (negro, feminista e LGBTQIA+).


A apresentação intencional e cuidadosamente selecionada dessas temáticas acaba por banalizar problemáticas sociais sérias, como são as questões de: auto declaração, sororidade, racismo, colorismo, estereótipos, cancelamento, entre outros. Sigamos alerta e com cautela, pois, a forma como tudo está exposto no BBB 21 fomenta a ridicularização dessas discussões que afetam milhares de vidas, alvos de uma série de exclusões que culminam na marginalização dessas populações.