• Jevison Cruz

A negação da realidade é a exposição do medo

Foto: Periódicos Fiocruz


Quem não se recorda dos versos imortalizados na voz de Maria Bethânia através da canção Negue? "Negue que me pertenceu, que eu mostro a boca molhada e ainda marcada pelo beijo seu". Pois bem, na psicanálise Freudiana a negação é interpretada como um mecanismo de defesa do Ego, a fim de que o consciente não tenha contato com a realidade nua e crua. Nesta perspectiva, o sujeito que vive em constante negação, comunica o seu medo em ser conquistado pelos contextos ameaçadores que o cercam. Por conseguinte, "nunca antes na história desse pais" se vinculou em demasia a informação negativa de que no Brasil não existe racismo. Mas, será que realmente não existe racismo na pátria amada? Será que as vidas negras realmente importam?


Então, o que dizer sobre as agressões praticadas por dois seguranças brancos que culminou na morte de um homem negro nas dependências de um grande supermercado no Rio Grande do Sul no último dia 19 de Novembro do corrente ano? (G1, 2020). Questionado sobre o fato, o vice-presidente da república, respondeu que: "não existe racismo no Brasil; isso é uma coisa que querem importar aqui no Brasil, isso não existe aqui". Logo, se pode observar sem muito esforço no discurso do general, a presença da ideologia da negação, a qual tem se tornado uma característica marcante na atual gestão nacional. Sabe-se que o Brasil foi o ultimo país do ocidente a "eliminar" a escravidão (SCHWARCZ, 2018). Entretanto, a realidade mostra um racismo encontrado nas estruturas, que se desenha no mercado de trabalho, na educação, enfim, na sociedade brasileira. Dados revelam que 64% dos desempregados no país, por exemplo, são negros e pardos, dos atuantes no mercado de trabalho, seus salários são até 73% a menos se comparados com sujeitos brancos (BRASIL DE FATO, 2019). No debate sobre a violência, a taxa de homicídios praticados contra pessoas negras avançou no Brasil cerca de 11,5% se comparado a indivíduos brancos que caiu 12%, entre os anos de 2008 a 2018. (BRASIL DE FATO, 2020).


Então, será que verdadeiramente não existe racismo no Brasil? Será que o debate se constitui em apenas uma importação ideológica? Contudo, se mesmo assim, uma pequena parcela da população insistir na negação da existência do racismo na sociedade brasileira, prefiro acreditar na psicanálise Freudiana, uma vez que a negação de eventos concretos tão somente ratificam o medo de admitir a realidade. Vidas negras importam!

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